Ao Bar

Por causa de um inesperado desajuste com o mundo, me dei conta de que estava precisando acertar as contas com a bebida. Assim voltei ao Bar após um ano e meio de ausência. O sol já tinha se posto. Peguei a camiseta largada na cadeira, calcei um chinelo e desci pro boteco mais próximo. O Cabelim não estava no balcão. Tinha um novato, que soltou um “boa noite” detrás do pano no ombro enquanto mexia no freezer. Deduzi que teria que pagar à vista, já que ele provavelmente não teria autoridade para me realocar no caderno de fiados. Mas tudo bem, eu tinha uns trocados no bolso. Em menos de cinco minutos, estava acomodado e servido na poltrona de plástico, com o movimento da calçada ocupando meus olhos. O esperado pode nem sempre agradar, mas aconchega: o refrão conhecido de um artista do qual não faço ideia, o traquejo com a poça d’água embaixo do copo, o assentimento a um comentário que mal ouvi. Na segunda garrafa, não pude deixar de me envolver na discussão entre o meu vizinho e o novato a respeito de uma pinga que o Cabelim tinha trazido do interior. Essa reentrada abrupta na rotina etílica me esparramou ainda mais na cadeira. Termino essa garrafa e pronto, meu acerto de retorno estaria feito. Voltando para casa, tinha resposta para tudo: ah, vocês vão ver. Mas esqueci. Aprecio o anoitecer à mesa de Bar, é como se o fracasso de um dia inteiro nos desse o conforto de confirmar a falta de perspectiva para o dia seguinte. Cinco vezes por semana, o mesmo horário, a mesma bebida — e à mudança de preço, a mesma imprecação. O retorno ao hábito não me demandou nenhum esforço. Num Bar, bastam duas idas para que a gente saiba qual será a nossa mesa pelo resto de nossas vidas. Não há nada de meticuloso nisso. Quem frequenta o Bar na hora do crepúsculo não quer saber de expectativas, nem mesmo a de escolher uma mesa, porque desejo é para os incautos, que volta e meia com alarido e petiscos tomam nossos lugares. Bar, verdadeiro templo da espiritualidade. Às mesas do cair da tarde, somos todos iguais. O ego não ergue fronteiras se não há fricção com a vontade. A última pretensão a ressaca enterra, nos encaminhando a um novo trago e se impregnando em nosso ser, que segue o seu fluxo nato: desleixo, decadência e morte. Apenas por conta de uma moral de meia-pataca, não se reconhece que no Bar corpo e alma se consubstanciam. Eles querem altares, sacrifícios, Deus… não, fanfarrões, precisamos apenas de uma mesa de plástico. Por causa do meu período de negação, talvez eu esteja agora mais tolerante com os aventureiros. No estado de espírito que me encontrava, não teria sido difícil ter distribuído alguma palavra encorajadora. Hoje, cada dia que vejo o sol invadir as frestas do meu quarto, pressinto a rotina de incômodos se desdobrar na minha frente. Com vexame, me relembro dos dias em que me levantava com projetos, cheio de esperança. A cada decepção, um aprendizado, mas não um novo aprendizado, como os sorridentes que tomam nossas mesas crepusculares creem. O aprendizado é um só: toda ação é em vão. De fato, a vida se reafirma a cada fracasso.
